Edwal Portilho: “Como fica? É preciso conversar muito, governo, setor produtivo e os outros poderes”

Frustração. Esse é o sentimento que resume como o setor produtivo recebeu o decreto 9.645/2020, assinado pelo governador Ronaldo Caiado e publicado nesta sexta-feira (3) no Diário Oficial do Estado, prorrogando o período de quarentena devido à epidemia de Covid-19. A expectativa era que boa parte da atividade econômica fosse retomada, mas a flexibilização das regras de isolamento foram restritas a alguns negócios.

O decreto 9.64/20 permite que escritórios de profissionais liberais (como contabilistas), de administradoras de condomínios e de imobiliárias funcionem. Contudo, não pode haver atendimento presencial de clientes. As feiras de hortifrutigranjeiros também foram liberadas, mas com restrições: praças de alimentação e consumo de produtos no local estão proibidos; a exposição e entrega dos produtos seguirá padrões determinados pela Secretaria da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Permanecerão fechados estabelecimentos que possibilitem aglomerações, como shoppings centers, teatros, bares, museus, academias, camelódromos e cinemas, assim como a realização de viagens de turismo e cultos em templos religiosos. Supermercados e farmácias seguem liberados. “O decreto foi uma frustração sem tamanho. Saúde e economia têm de andar juntas”, lamentou o presidente da Federação da Indústria do Estado de Goiás (Fieg), Sandro Mabel, que concedeu entrevista via internet logo após a exposição do governador Ronaldo Caiado sobre o novo decreto.

Para Mabel, Caiado tombou uma decisão que contraria as recomendações técnicas da Secretaria da Saúde. O líder classista disse que vários segmentos estavam prontos para retomar as atividades, como o da construção civil. Segundo ele, há condições para “reabertura responsável”: o Fórum Empresarial desenvolveu uma plataforma com instruções de segurança sanitária para serem colocadas em práticas em todas as empresas. O presidente da Fieg acredita que muitos empresários vão começar a abrir as empresas “de qualquer jeito”. “Ajudamos até o último momento, dia 4 [como previa o decreto anterior], temos respeitado isso, afirma Mabel, para quem será muito difícil impedir “o pessoal de fazer uma abertura”.

Presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Goiás (Acieg), Rubens José Fileti diz que o setor produtivo se planejou para retomar a atividade com responsabilidade. “A gente lutou muito, ouviu muitos setores, todos se propuseram a fazer estudo, gastar dinheiro. [O governo] Pega tudo isso, faz a interlocução, e retorna com a negativa. É muito frustrante para a economia”, afirma.
Fileti diz que o setor produtivo está de acordo com as medidas para preservar a vida, mas que existe dúvidas em relação aos números da Covid-19 em Goiás. “Não por falta de transparência, mas pelo relato das pessoas, que estão testando e demorando para chegar o resultado”, afirma. Por isso, segundo o líder empresarial, os números da pandemia “frustram o setor produtivo, porque não sabe se realmente está bem”.

O lado positivo do decreto, para o presidente da Fieg, é a liberação das feiras livres e escritórios de profissionais liberais. Mas ele afirma que empresários de outros segmentos estão com “o lado da emoção aflorado”, por ferem “filhos passando fome”. “Vamos pagar para ver o que vai acontecer. Tenho impressão de que vai sair do controle”, alerta. Fileti cobra mais rapidez no socorro governamental para os empresários, especialmente para as micro e pequenas empresas e para os microempreendedores individuais (MEI). “Tem gente que está passando fome, literalmente”, afirma. O presidente da Fieg reivindica que as linhas de crédito anunciadas pelos governos saiam do papel. “O dinheiro já deveria estar na conta [do empresário]”, afirma.

Marcelo Baiocchi, da Fecomércio, considera que, para o setor, houve um avanço significativo com a liberação das feiras e escritórios de profissionais liberais. “O feirante tem apenas essa fonte de renda. Uma semana sem fazer feira é uma semana sem comida em casa”, afirma.  Ele acredita, contudo, que era preciso avançar mais, pois o setor está preparado para a reabertura. “Entendemos que o funcionamento de alguns estabelecimentos deveria ser flexibilizado, como o pequeno comércio do interior e da periferia da Região Metropolitana”, diz. Baiocchi defende, também, que o comércio de material de tecnologia da informação volte a funcionar. “São comércios de pequeno porte, que não causam aglomerações”, justifica.

Presidente da Associação Pró-Desenvolvimento Industrial de Goiás (Adial), Edwal José Portilho afirma que a dilatação do prazo de quarentena é preocupante, especialmente por ela ter ocorrido sem que fosse anunciado concomitantemente um plano para retomada. “Serão 30 dias parados. A folha de pagamento continua rodando, os impostos continuam vencendo. Como fica essa situação? É preciso conversar muito, governo, setor produtivo e os outros poderes”, diz. Para Portilho, as micro, pequenas e médias empresas precisam ter acesso imediato a capital de giro, com o máximo de carência e prazo de amortização e juros subsidiados. Ao mesmo tempo, cobra atenção especial às grandes empresas que, segundo ele, são as que puxam as demais categorias.

O presidente da Adial nutria a expectativa de que houvesse uma flexibilização maior da quarentena por parte do governo estadual. E aponta um outro problema: o estoque de empresas que estão funcionando começam a ter estoques elevados. “A venda caiu muito na indústria de alimentos, porque hotéis, restaurantes e fast foods, que são grandes compradores, estão fechados”, alerta.


Deixe seu comentário