Desde que Goiás adotou a quarentena como estratégia de combate ao coronavírus, um dos setores mais prejudicados, certamente, é o de academias de ginástica e similares. Já no primeiro decreto do governo estadual, no início da segunda quinzena de março, os estabelecimentos tiveram de baixar as portas. Dois meses mais tarde, o Sindicato das Academias de Goiás (Sindac Goiás) – que também reúne escolas de natação e cross fit, entre outras – estima que 50% dos 12 mil empregos gerados pelo setor serão eliminados pela crise econômica decorrente da pandemia.

O cálculo é do presidente da entidade, Dennis Egídio Gonçalves. Ele conta o próprio exemplo: os 12 funcionários que tinha antes do início da quarentena, apenas sete devem permanecer no emprego – por tempo que ele ainda não sabe calcular, pois não há perspectiva de abertura imediata dos estabelecimentos. “Estamos fechados há 60 dias e acredito que não voltemos antes de agosto. Só no nosso grupo de WhatsApp, já recebi mensagens de pelo menos dez proprietários que não reabrirão”, conta.

De acordo com o Sindac Goiás, existem aproximadamente 1,2 mil academias e similares no Estado. Cerca de 700 delas estão na Grande Goiânia. Os números levam em consideração apenas os estabelecimentos com o Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) regular. Ele conta que o setor não tem tido, ao menos, acesso a linhas de crédito. “O empréstimo oferecido pela Goiás Fomento tem taxa de juros de 1,39% ao mês. No FCO era de 0,5%. No Proger [Banco do Brasil] era de 0,6%. O que o governo está oferecendo é inviável”, reclama.

Dennis Egídio é proprietário da Atlantys Sports, no Setor Campinas. Com foco predominantemente em idosos, o estabelecimento foi fundando há 26 anos. Mas, com a crise atual, ele tem vendido equipamentos para pagar as contas fixas. “Se tenho duas máquinas iguais, vendo uma. Meu público, sendo idoso, não deve voltar nem quando a situação se normalizar”, lamenta.

Quem também está se virando com as contas é o proprietário da franquia Blue Fit em Goiânia, Gustavo Madeira, que tem quatro unidades na capital. Nos 30 primeiros dias de quarentena, a maior parte dos 120 funcionários ficou de licença remunerada. “Infelizmente, com isso, eles perderam as férias”, explica. Depois, o empresário suspendeu os contratos com base na Medida Provisória 936, que criou o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e Renda. “Por enquanto não demitimos ninguém”, afirma.

O empresário conta que, logo na primeira semana da quarentena, foram criados comitês de gestão de crise para que toda a rede ficasse alinhada. “Compartilhamos boas práticas da matriz e dos franqueados para fortalecer a marca como um todo”, conta. A franqueadora ainda flexibilizou o pagamento de royalties.

Proprietário da Typ Academia, que fica no Setor Sul, em Goiânia, Wellington Oliveira diz que tinha 1 mil alunos e 30 funcionários quando começou a quarentena. A academia tem três andares e 1,6 mil metros quadrados de área. “Logo que soubemos que teríamos de fechar [por causa da quarentena] tivemos de dispensar os funcionários que haviam sido convidados para fazer teste na empresa”, conta. Os demais tiveram os contratos suspensos, conforme a MP 936. Porém, a validade da Medida Provisória termina no fim de maio. “Após esse prazo, não sabemos como as empresas e os funcionários vão se virar. Teremos uma situação crítica com o fim desse auxílio do governo federal”, avalia.

O empresário diz que tem tido empatia dos clientes: alguns continuaram a pagar as mensalidades dos planos e outros negociaram o pagamento de 50%. Do lado do poder público, porém, o mesmo não ocorre. “Os governos estadual e municipal não abriram mão dos seus tributos e as contas continuam chegando”, afirma. Wellington Oliveira explica que empresas que não tinham capital de giro ou que ele era muito pequeno, não têm mais como se manter. “Os trabalhadores informais receberam o auxílio de R$ 600. Os funcionários que tiveram os contratos suspensos recebem auxílio do governo. Mas os empresários e suas famílias não têm de onde tirar recursos. Os governos esqueceram dessa fatia do mercado, que é a parte da população que contribui para a manutenção dos custos governamentais”, diz.

Ele conta que muitos empresários têm manifestado a intenção de não reabrir as suas academias e que as linhas de crédito oferecidas pelos governos não são satisfatórias. “Tendo dinheiro para pegar empréstimo já é complicado, imagine no risco de não haver recursos para quitá-los. As taxas de juros não são viáveis”, critica.

Breno Magalhães: “Os alunos de jiu-jitsu têm ajudado no pagamento de algumas contas, como energia e água”

Para os pequenos negócios do setor, a situação é ainda mais complicada. Breno Magalhães, dono da Dojô Magalhães, no Parque Atheneu, em Goiânia, suspendeu as aulas assim que a quarentena teve início. Ele tinha quatro funcionários e cerca de 70 alunos, inclusive muitas crianças. Ele relata que os alunos de jiu-jitsu têm ajudado no pagamento de algumas contas, como energia e água. E o aluguel, de R$ 1,8 mil por mês, foi negociado com o proprietário do imóvel. “Mas terei de pagar depois”, diz. Magalhães, que também é jornalista, afirma que, mesmo que houvesse permissão de volta às atividades, ele não reabriria. “O jiu-jitsu é um esporte de muito contato, muita proximidade”, explica. “Não temo como passar álcool em gel ou usar máscara”.


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