Samuel Pessoa: “Vamos viver 60 dias de muitas incertezas”

Samuel Pessoa: “Vamos viver 60 dias de muitas incertezas”

30 de abril de 2020

Economista Samuel Pessoa: “Os próximos dois meses serão cruciais para se saber o real tamanho das crises econômica e política no Brasil”

O economista Samuel Pessoa afirma que serão necessários ainda 60 dias para se ter um quadro mais confiável sobre como a economia brasileira vai superar a crise causada pela pandemia do Covid-19. “Os próximos dois meses serão cruciais para termos maior claridade da extensão das crises econômica e política no Brasil. Até lá teremos muitas incertezas e forte volatilidade no mercado”, afirmou o economista em debate realizado pelo Sistema OCB-GO com lideranças do setor cooperativismo de Goiás, empresários e profissionais de economia e do jornalismo especializado. Samuel de Abreu Pessoa é professor de economia com doutorado pela USP, pesquisador da FGV e sócio-diretor do Julius Baer Family Office.

“Essa pandemia mundial, de certa forma, já era esperada. O que, embora seja elevada, permitiu reduzir a taxa de sua mortalidade no mundo. Ela tem um crescimento exponencial, muito acelerado, mas o isolamento social quebra esta curva acedente. Quando observamos os números do Brasil e da América Latina a sensação é que a pandemia é menos grave por aqui. No entanto, nos últimos dias os novos números mostram que a gravidade é maior do que esperávamos. No Brasil os casos continuam a crescer. Não sabemos ainda os motivos, se é efeito da flexibilização do isolamento social no País”, afirmou. Segundo previsões da PUC-RJ, a pandemia começará a ceder em meados de maio. “Ou seja: a saída do lockout no Brasil seria para início de junho”, frisa o economista.

Samuel Pessoa afirma que a crise econômica gerada pela pandemia é muito diferente, por exemplo, da causada pelo Plano Collor, que congelou a riqueza financeira das pessoas e desorganizou a economia real. “Nasceu no setor financeiro, por erro do governo, e contaminou toda a economia brasileira”, frisa. Também é muito diferente da crise econômica mundial gerada pela bolha do crédito imobiliário nos Estados Unidos em 2007 e 2008, que produziu a falência do sistema bancário dos EUA e da Europa, o que também atingiu a economia real nos países desenvolvidos.

“Agora temos algo muito diferente: estamos desligando a economia real. A produção vai cair e acabará atingindo o setor financeiro. O desafio é fazer que este deserto que vamos ter de transpor, o do isolamento social, não gere efeitos permanentes sobre a atividade produtiva. Então, todo o foco das políticas é manter a economia mais integra possível ao longo deste deserto que vamos atravessar”, diz.

O economista destacou três frentes deflagradas pelo governo federal: a transferência de renda para as famílias de menor poder aquisitivo; a política de se permitir flexibilização contratual, por exemplo com a possibilidade das empresas suspenderem contratos de trabalho; e a oferta de crédito para empresas em condições especiais tanto em prazo como em juros, em que o Tesouro Nacional assume boa parte dos riscos. “Se tudo isto der certo, lá na frente poderemos ter uma economia voltando a sua normalidade, com a maior parte das empresas e dos empregos salvos. Se a política for mal conduzida, teremos milhões de empresas quebradas e empregos perdidos. Isto vai prolongar a queda da atividade produtiva e tornará muito mais lenta a recuperação da economia”, enfatiza.

As duas principais características da atual crise é que ela deve ser forte, mas passageira, frisa o economista. “Mas a perda que vamos sofrer neste ano ela será permanente, dificilmente será recuperada nos anos seguintes, porque o principal motivo dela é a política de isolamento social, que afeta muito mais a demanda por serviços, como restaurantes, cinemas, turismo, etc. Quando sairmos da política mais rigorosa de isolamento, com novos hábitos pessoais e de consumo, demandará um tempo maior para o retorno da normalidade em vários segmentos econômicos”, afirma Samuel Pessoa.

O economista afirma que em condições normais, a economia mundial cresce a uma taxa média de 3% ao ano. ”O cenário-base do FMI para este ano é de desaceleração mundial neste ano de 3%, portanto vamos ter um tombo real de 6%, e para 2021 um crescimento de 5,5%, portanto 2,5 pontos acima de uma taxa normal de crescimento. Daí em diante voltaríamos a taxa média de 3% ao ano”, frisa.

“Para a economia brasileira é muito difícil fazer previsões neste momento. Por ora, a maior parte das projeções gira em torno de uma queda de 3,5% para o nosso PIB neste ano, mas acredito que será pouco maior, na casa de 4,5%. Mas, no próximo ano teremos um crescimento nesta mesma proporção, na casa dos 4,5%, o que vai apenas recuperar as perdas de 2020. Devemos ter neste ano uma inflação de 2% a 2,5%, aumentando um pouco em 2021 para a casa de 3% e a política monetária deverá ainda ter maior afrouxamento neste ano com a taxa Selic chegando em dezembro na casa de 2% ao ano. Esses são os resultados de nossas simulações atuais”, afirma o economista.

O que vai determinar um retorno mais rápido do crescimento econômico no mundo e no Brasil, na opinião de Samuel Pessoa, será o grau da dificuldade do setor produtivo após o período do Covid-19 e também qual será o impacto que teremos do convívio cotidiano com o novo coronavírus. “A China é hoje nosso principal radar para responder esta pergunta, por estar mais avançada neste processo. No primeiro trimestre deste ano a sua economia recuou 6,8%, comparado com o primeiro semestre de 2019. Mas no segundo trimestre, pelos números ainda preliminares, a economia da China já estaria rodando com taxa de crescimento de 5% em comparação ao segundo trimestre de 2019. Se confirmar, será uma boa notícia porque sustentará o cenário para o resto do mundo de uma recuperação mais rápida. Mas só teremos maior clareza disto daqui a 60 dias, no mínimo”, diz.

Outro fator preocupante destacado pelo economista é a constante crise política no Brasil. “Também, como na economia, é muito difícil de prever como será o desenrolar desta crise política. Nos próximos dias vamos saber quais serão as consequências de pedidos de investigações contra o presidente Bolsonaro, se vão resultar na abertura de um pedido de impeachment no Congresso Nacional ou até mesmo um processo de julgamento de natureza penal por parte do STF. Se um destes dois ou ambos cenários se confirmar poderemos ter o afastamento do presidente nos próximos 60 dias. A outra possibilidade é Bolsonaro conseguir superar estes obstáculos. Ainda assim, ficará a dúvida se o presidente que vai ceder ao fisiologismo do Centrão e jogar por terra o ajuste fiscal necessário ao País ou vai manter o ministro Paulo Guedes (Economia) e a consequente responsabilidade fiscal no governo federal”, afirma.

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