Gustavo Carrer: “Os desafios para atender as potenciais demandas estão mais da porta para dentro do que da porta para fora das empresas brasileiras”

A Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) tem incentivado a indústria goiana a apostar mais no comércio exterior, numa tentativa de alargar a base exportadora do Estado, ainda muito associada à venda externa de commodities, especialmente do agronegócio. Nesta quarta-feira (7/11), a Federação, em parceria com o Centro Internacional de Negócios (CIN) e o Conselho Temático de Comércio Exterior (CTComex), realizou a sexta edição do Encontro Internacional de Comércio Exterior (EICE).

“Temos feito um trabalho de formiguinha ao longo desses anos, promovendo missões ao exterior e incentivado nossos empresários a conhecer melhor o potencial do mercado externo. Sabemos das dificuldades, como a teia de impostos e burocracia que temos no Brasil, mas só conseguiremos ampliar nossa base exportadora se toparmos juntos esse desafio”, disse na abertura do evento o presidente da federação, Pedro Alves de Oliveira.

Empresário experiente em negócios externos, Emílio Bittar, presidente do Conselho Temático de Comércio Exterior da entidade, o CTComex, também chamou atenção para a importância da geração de riqueza que as empresas exportadoras geram tanto para o Estado, como também para os municípios. “Precisamos mostrar aos governantes de diferentes níveis – União, Estados e municípios – que a empresa exportadora gera riquezas em seu território, onde está a sua base produtiva”, observou.

Pedro Alves: ”Sabemos das dificuldades, como a teia de impostos e burocracia, mas só conseguiremos ampliar nossa base exportadora se toparmos juntos esse desafio”

Oportunidades e desafios

Na programação de palestras, a que mais chamou a atenção dos empresários foi o panorama dado pelo consultor paulista Gustavo Carrer. Com experiência de mais de 20 anos no comércio internacional pelo Sebrae de São Paulo, Carrer abordou no evento da Fieg as oportunidades, estratégias e desafios das empresas brasileiras no mercado externo. Com uma fala cheia de dados e dicas, o especialista sugeriu especialmente “vontade” e um “planejamento mínimo” a quem quer se aventurar nas vendas externas.

Segundo ele, o Brasil tem um longo caminho a percorrer nessa seara. O país conta com 13 milhões de empresas formalizadas, mas apenas 25 mil exportam, segundo dados de 2017 da Apex (Agencia Brasileira de Exportações). E Goiás aparece bem na fita, registra Carrer. O Estado conta com 336 empresas exportadoras.

“Proporcionalmente, é maior do que São Paulo, por exemplo. E acho que isso se deve à pauta variada de vocês. Aqui há empresas exportadoras de agro, indústria farmacêutica e metalurgia, enquanto em São Paulo são muitas empresas exportando em grande escala, mas em poucos segmentos”, comentou Gustavo Carrer já entrando nos gargalos e potenciais da exportação nacional.

Emílio Bittar: “Precisamos mostrar aos governantes de diferentes níveis que a empresa exportadora gera riquezas em seu território, onde está a sua base produtiva”

Motivos

O consultor elenca alguns motivos que levam o empresário brasileiro a não querer exportar. Primeiro, diz, o país tem um mercado interno grande e, em muitos casos, não totalmente explorado. “Aí o empresário diz ‘eu ainda não vendo em metade dos estados brasileiros, porque vou me arriscar a exportar?’”, lembrou para somar a barreira da língua, a má infraestrutura logística, burocracia e tudo o que envolve o chamado custo Brasil.

Mas segundo Carrer, os limites à cultura exportadora do brasileiro não param nesses aspectos mais macros. Há também os motivos internos das próprias empresas, como a falta de visão estratégica do negócio, baixa qualidade, produtividade/competitividade e falta de conhecimento do mercado internacional e sobre o próprio processo de exportação.

“Quem, no entanto, topar esse desafio, pode encontrar muitas e boas oportunidades de negócio lá fora”, disse o palestrante passando a listar alguns desses potenciais já levantados em estudos recentes de diversos organismos públicos e privados de fomento à exportação.

Numa primeira lista de oportunidades, Carrer citou produtos com características de brasilidade, como criatividade, biodiversidade e a alegria e bom humor típicos com que o brasileiro costuma ser visto lá fora. Nesse capítulo entrariam empresas dos ramos de cosmético, calçado, economia criativa, alimento e bebidas típicas, como a cachaça e outras iguarias só encontradas aqui.

Os públicos-alvo dessas oportunidades, apontou o consultor, estão na Europa, América do Norte (Estados Unidos e Canadá), Ásia e o chamado “mercado da saudade”, formado por brasileiros morando em diferentes lugares do mundo e ávidos para consumir algo que remeta ao país.

A segunda lista de oportunidades de mercado externo mostrada por Gustavo Carrer contempla empresas brasileiras das áreas de máquinas e equipamentos de pouco ou média complexidade, projetos e serviços, móveis, TI e produtos farmacêuticos. O públco-alvo nesses casos está nas Américas do Sul e Central, África e Oriente Médio.

Conforme o consultor, os desafios para atender a essas potenciais demandas estão mais “da porta pra dentro do que da porta pra fora das empresas brasileiras”. Para isso, sugere, é preciso aprender a identificar clientes e canais de comercialização, adequar produtos e embalagens para cada público e estar aberto a aprender com contratos e processos novos, coisas inusuais para a empresa até então. “É assim que se constrói a tão falada cultura exportadora. De fato é penoso, mas é altamente recompensador”, concluiu Carrer.

Rodada de negócios teve a participação de nove compradores internacionais interessados em produtos das áreas de alimentos e bebidas da indústria goiana

Rodada de negócios

O evento reuniu empresários, pesquisadores, estudantes e representantes governamentais, incluindo uma comitiva de embaixadores de sete países (Bélgica, Canadá, China,Coréia do Sul, Holanda, Israel e Vietnã), que vieram conhecer a base exportadora goiana, fundamentada no agronegócio, na indústria farmacêutica e no setor metal-mecânico. Além de palestras de especialistas, houve ainda uma rodada de negócios com nove compradores internacionais interessados em produtos das áreas de alimentos e bebidas da indústria goiana.

Segundo o Centro Internacional de Negócios (CIN), os compradores são representantes de distribuidoras atacadistas do Equador, Colômbia, Bolívia, Argentina, Chile, México e Moçambique. São negociantes que já compram de empresas brasileiras, mas que ainda não conheciam fornecedores de Goiás. O foco dessas negociações envolveram pequenas e médias empresas goianas desses dois segmentos (alimentos e bebidas).


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