Canuto: “Fotografia do Brasil é ruim, mas o filme é favorável”

Canuto: “Fotografia do Brasil é ruim, mas o filme é favorável”

17 de julho de 2017

De Canuto, diretor do Banco Mundial: “O filme brasileiro está mais para um final de Holywood do que para final de filme francês.” (Fotos: Sílvio Simões)

O momento econômico atual brasileiro é preocupante, ainda mais com a grave crise política no País, mas a longo prazo o cenário é de otimismo. Desde que o período difícil de agora sirva de aprendizado para o futuro. A opinião é do Diretor Executivo do Banco Mundial, Otaviano Canuto, nesta entrevista exclusiva ao EMPREENDER EM GOIÁS, depois de participar do 1º Fórum Econômico de Goiás, realizado pela realizado pela Federação das Associações dos Jovens Empresários (Faje) na UniAlfa , com apoio de várias entidades e empresas.

Com 15 milhões de desempregados, a maioria de jovens, estimular o empreendedorismo é uma saída para ajudar as pessoas a buscarem uma nova perspectiva de vida?

Em qualquer  canto do mundo o empreendedorismo é visto como uma fonte potencial. Não só para resolver o problema de desemprego, mas também de introdução de inovações e também de fazer processos produtivos de maneira diferente e , portanto, de progresso. No Brasil, uma das grandes  dificuldades com relação ao empreendedorismo  diz respeito ao ambiente de negócios, aos fatores circunstanciais em que opera qualquer empreendimento no Brasil, que não são dos melhores do mundo. Na medida em que estes fatores desfavoráveis, inimigos do empreendimento,  afetam principalmente  novos empreendedores, ele é maléfico para o Brasil. Acho que a melhor coisa que nós  devemos fazer no Brasil é melhorar o ambiente de negócios para deixar florescer o máximo o empreendedorismo, que é uma maneira das pessoas, naturalmente, encontrarem saída diante da carência de oferta de empregos.

O Banco Mundial tem programas nesta área que poderiam ajudar quem quer ser empreendedor?

O Banco Mundial tem programas para melhorar o ambiente de negócios, mas isto depende de leis, formas de gestão do setor  público em seus diversos níveis e da harmonia e sintonia  entre os poderes no País. Em cada uma destas áreas a instituição tem trabalhos de apoio em que exemplos de sucessos e fracassos no mundo inteiro são trazidos para ajudar nos elementos necessários para os formadores de política no Brasil tomarem as decisões corretas.

“A melhor coisa que devemos fazer no Brasil é deixar florescer ao máximo o empreendedorismo, que é uma maneira das pessoas encontrarem saída diante da carência de oferta de empregos.”

 

Qual o futuro do Brasil diante de uma crise política sem precedentes, recorde de desemprego e crescimento econômico em queda?

Acho que cumpre diferenciar a fotografia do filme. A fotografia é dura, difícil, como o alto nível de desemprego e o ritmo do crescimento econômico em declínio durante bom período. Este ano ainda estamos longe de recuperarmos o que perdemos, além da volatilidade no campo político. Agora, algumas coisas estão mostrando bons sinais como o declínio da inflação e a possibilidade de juros mais baixos. Mas de qualquer maneira,  não tem como negar que é uma fotografia sombria. O filme é muito mais favorável porque acho que tem uma percepção generalizada na população brasileira e nos diversos componentes do tecido social da importância de uma melhora na governança do setor público, cuja relação com o  setor privado tem, de agora em diante,  de ser diferente do que tem prevalecido na história recente e até um pouco antes na história brasileira. Em lugar de relações de compadrio, de privilégios, de subsídios a uns e a outros, nós temos visto claramente uma predileção maior por relações mais transparentes, sem subtefúrgios, sem coisas debaixo do tapete.

Qual o final deste filme?

Quando  chegarmos lá, teremos decisões de gastos públicos com melhor resultado econômico e social, ambiente de negócios menos inimigo da concorrência e mais premiador da produtividade. Nós vamos ter decisões de investimentos em infraestrutura que vão ser mais de acordo com o objetivo que a previsão de ser visto em infraestrutura  em lugar de oportunidades de ganhos final políticos e corrupção  de curto prazo. Portanto, somando tudo isso, .

“Quer você goste ou não vai ter de ter reformas estruturais que cortem este mecanismo automático de crescimento dos gastos públicos ano após ano.”

O senhor cita duas questões importantes  que travam o crescimento da economia brasileira: o aumento anêmico da produtividade e a obesidade das contas públicas. O governo que assumir em 2019 terá o compromisso prioritário de solucioná-las?

Inevitavelmente. A obesidade fiscal já tem agora de lidar com a camisa de força, que é a emenda dos gastos públicos. Então, quer você goste ou não vai ter de ter reformas estruturais que cortem este mecanismo automático de crescimento dos gastos públicos ano após ano. O componente central disso definitivamente é a Previdência. Vai ter de ter a reforma previdenciária. Teremos reformas ao longo do tempo e quanto mais as adiarmos, maior terá de ser o tamanho da reforma seguinte. A obesidade fiscal terá de ser tratada.

O populismo adotado por vários governos na América do Sul fracassou?

Populismo nunca mais. Neste regime político pagamos a conta mais cedo ou mais tarde. No frigir dos ovos o custo é bem maior que os benefícios de custo prazo. A Venezuela e outros países vizinhos ainda estão no meio disso.

Wanderley de Faria é jornalista especializado em Economia e Negócios, com MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela FIA/FEA/USP - BM&FBovespa

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