Maior fábrica brasileira de sorvetes começou numa garagem em Goiânia

Maior fábrica brasileira de sorvetes começou numa garagem em Goiânia

21 de junho de 2017

Antônio Benedito dos Santos, da Creme Mel: vontade de ficar perto da família foi determinante para o início da empresa

A indústria goiana Creme Mel é hoje a maior fabricante nacional de sorvetes e compete no mercado brasileiro com multinacionais como Kibon e Nestlé, com uma produção anual de 36 milhões de litros de sorvetes e 1,4 mil funcionários. Está presente em 17 Estados e, em 2015, adquiriu a indústria de sorveteria pernambucana Zeca´s, de a principal do setor no Nordeste do País.

A Creme Mel foi criada pelo empresário Antônio Benedito dos Santos que, ainda muito jovem, tinha o sonho de ser motorista de ônibus. Na época, era cobrador no transporte coletivo de Goiânia. Não demorou para realizá-lo e, ao tirar habilitação com 20 anos de idade, conseguiu emprego de motorista na Transbrasiliana. Mas, por conta das longas viagens interestaduais, que o obrigavam ficar muito tempo fora de casa, constatou que só ficaria mais perto da mulher e filha se deixasse a profissão.

Então, aos 34 anos, Antônio Benedito largou o emprego de motorista que sustentava sua família e, com o dinheiro da rescisão – o equivalente a R$ 15 mil, nos valores de hoje -, decidiu abrir uma sorveteria artesanal na garagem de sua casa no Setor Cidade Jardim, em Goiânia.

No início, lembra o empresário, foi desaconselhado até pelo contador que fez o primeiro registro da sua empresa, literalmente de fundo de quintal. “Ele perguntou: por que o senhor não monta outra coisa? O senhor já viu alguma sorveteria crescer?”, conta Antônio Benedito ao EMPREENDER EM GOIÁS.

Mesmo desacreditado, o então microempreendedor não desistiu. Em 1987, iniciou a produção em casa, onde usava um caldeirão de cinco litros para ferver o leite no fogão. Era a sua capacidade de produção.

“Tudo o que pensei não era fácil. Pensei em supermercado, em loja de roupa, mas não tinha experiência e não sei se me sairia bem. Foi aí que pensei no sorvete, de criar algo diferente de tudo e que fosse muito bom”, afirma Antônio Benedito, que usou o dinheiro do acerto rescisório para comprar uma máquina usada de fazer sorvete, um freezer de segunda mão e quatro carrinhos de picolé.

Segredo do sucesso
Como é quase uma regra nas histórias de sucesso empresarial, o início foi de muito trabalho e persistência. Apenas a mulher ajudava o empresário na produção dos sorvetes. “Eu fazia picolés, às vezes até meia-noite, e tirava uma parte da noite para fazer entregar em uma caminhonete. Outras vezes, avisava que estava saindo para fazer entregas e minha mulher recebia os clientes que apareciam na porta de casa”, relembra.

O segredo para o crescimento da Creme Mel foi apostar num produto diferente do que já existia no mercado, além do investimento em matéria-prima de qualidade. “Colocamos leite em pó no leite para ficar mais consistente e sempre trabalhamos com frutas naturais como maracujá, goiaba, banana e abacaxi. Isso deu uma alavancada muito grande na empresa. Quando faço um produto que gosto, sei que ele terá boa aceitação”, afirma Antônio Benedito.

Disposto a criar um produto de qualidade, o próprio Antônio Benedito criava as receitas dos sorvetes. Se fizesse um picolé de melhor qualidade e sabor, ele próprio tomava a iniciativa de trocar todas suas mercadorias (por sua conta) nos freezers em mercados e bares, pois apostava que o cliente e o dono do estabelecimento iriam gostar mais do novo produto. Cativava, desta forma, a clientela. O empresário, ciente de que precisava aprender sobre gestão empresarial, começou a participar de vários cursos profissionalizantes.

Antônio Benedito: “Pensei em supermercado, mas não tinha experiência e não sabia se sairia bem. Aí pensei no sorvete.”

A Creme Mel ainda experimentava um crescimento tímido. Para ajudar na expansão do negócio, Antônio Benedito passou a investir em novos pontos de venda e na compra de freezers, que o ajudaram a distribuir seus produtos na capital goiana. Detalhe: muito controlado nos custos, o empresário era (e continua sendo) avesso à contratação de empréstimos e financiamentos de longo prazo. A maioria dos investimentos na expansão era bancada com recursos próprios.

A estratégia funcionou e, em menos de dez anos, a pequena fábrica na garagem de casa ficou pequena e obsoleta. Em 1996, o empresário decide contratar um financiamento de US$ 1 milhão do Fundo Constitucional Centro-Oeste (FCO) para construir a sua primeira fábrica, no Jardim Petrópolis (Goiânia). “Era uma necessidade. Chegou a um ponto que a energia começou a cair lá em casa por não suportar mais a produção na garagem. Mas eu precisava atender os pedidos, que só cresciam”, diz.

Detalhe: sobre o financiamento do FCO, que tinha dois anos de carência e até seis anos para quitar a dívida, Antônio Benedito pagou todo o empréstimo em apenas um ano.

Em 2003, surge a oportunidade de expandir ainda mais a Creme Mel, que nesta época já era uma indústria de médio porte em Goiás. Foi quando o ex-patrão Odilon Santos (Transbrasiliana) comprou a fazenda que fornecia quase a totalidade do leite (vacas jersey) para a fábrica de Antônio Benedito. Numa conversa para manter o fornecimento, Odilon Santos propõe uma sociedade e seu ex-funcionário topa, com apenas uma condição: não queria embolsar nada pela venda da metade da Creme Mel, mas que todos os recursos fossem investidos no crescimento da empresa.

Com o aporte de capital, que possibilitou a aquisição de equipamentos de última geração, todos comprados na Europa, a Creme Mel se expande para outros Estados. “O crescimento da empresa foi em torno de 50% ao ano”, afirma Antônio Benedito.

Dez anos depois, em 2013, a indústria goiana recebeu proposta de compra da metade das ações do fundo de investimentos privado HIG. Era o capital necessário para profissionalizar a gestão (com 60 anos de idade, Antônio Benedito já se preocupava com o futuro da empresa que criou) e consolidar ainda mais a Creme Mel no mercado nacional e fazer frente à forte concorrência. Os recursos também permitiram a aquisição da Zeca´s, maior rede de sorvetes do Nordeste, em 2015.

A indústria goiana Creme Mel detém 6,3% de participação do mercado brasileiro, quase empatada com a multinacional Nestlé, que está presente em todo o País e tem 6,5%. A líder é outra multinacional, a Kibon, com 35% de mercado.

Dificuldades
O empresário Antônio Benedito critica os custos da legislação trabalhista do País, que engessa o crescimento empresarial e inibe a contratação de mais trabalhadores, além da altíssima carga de impostos. “Só no ano passado, uma decisão do governo federal afetou muito o nosso negócio, quando aumentou o IPI sobre sorvetes em quase 500%. A gente pagava R$ 0,10 por pote e passamos a pagar R$ 0,50”, afirma. O que tem compensado o abrupto aumento da carga tributária federal, mantendo o negócio ainda viável, é a política de incentivos fiscais do Governo de Goiás. “Não fosse isto, não estaríamos tendo esta conversa hoje”, garante o empreendedor.

 

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7 thoughts on “Maior fábrica brasileira de sorvetes começou numa garagem em Goiânia”

  1. Avatar Jair disse:

    parabens antonio pelo seu empreendedorismo goiano e hoje sucesso Nacional

    1. Avatar Inaldo Lourenço dos Santos disse:

      Parabéns pela visão de negócios e gestão empresarial exemplar, muito sucesso sempre

  2. Avatar Flávio Rogério Abrão dos Santos disse:

    Uma excelente empresa para se trabalhar.
    É uma pena que ela deixou o estado do Mato Grosso do Sul.
    Eu estava acreditando muito na Creme Mel.

  3. Avatar Ligiane Valentim disse:

    Um exemplo de garra e determinação.Nos faz entender que é possível alcançar nossos sonhos! Acreditar e trabalhar …Receita de sucesso!

  4. Avatar Eberardo disse:

    Altamente descritivo artigo, eu gostei que muito. Haverá uma
    parte 2?

  5. Eu trabalhei na Creme Mel Sorvetes quando era na “metade da sua casa” e sei que o “Toizinho” (tratado carinhosamente) é um guerreiro e mais do que lucro, ele visava sempre a qualidade. Tenho orgulho de conhece-lo e ter trabalhado para esse homem magnífico e visionário.Parabéns pelo seu sucesso