É a economia, estúpido!

É a economia, estúpido!

18 de junho de 2017

Em 1992, quando disputou com então presidente George Bush (pai) a Presidência dos Estados Unidos, o candidato do Partido Democrata, Bill Clinton, adotou um slogan intrigante criado pelo seu marqueteiro James Carville: “É a economia, estúpido!” Na época, a frase foi apontada como principal responsável pela surpreendente reviravolta na campanha presidencial e que acabou por dar a vitória a Bill Clinton. Isto porque sintetizou o desconforto geral com o fraco desempenho da economia e de seu impacto sobre a vida do cidadão comum americano.

Sim, a situação da economia é o principal fator que tanto pode ajudar a reduzir o impacto das denúncias de corrupção sobre os presidentes quanto pode tornar inócuas as ações dos presidentes para escapar da responsabilização pública. Ou seja, com a economia fraca, presidentes ficam mais vulneráveis e com menos capacidade para reagir às denúncias.

No Brasil de agora, o slogan é perfeitamente aplicável, pois a perspectiva de melhora da economia virou, mais do que nunca, uma questão de sobrevivência para o presidente Michel Temer, após a sobrevida obtida com a vitória do governo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e com a decisão do PSDB de não abandonar o barco. Poderá também servir de contrafogo quando o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, denunciá-lo por corrupção, organização criminosa e obstrução da Justiça.

Para tanto, Temer não pode comprar sua permanência no Palácio do Planalto até janeiro de 2019, descuidando da agenda das reformas Trabalhista e da Previdência.  O governo sabe que a saída da recessão é um dos fatores mais importantes para sua sobrevivência. Tanto é assim que o presidente atrelou sua permanência no poder à continuidade de melhora dos indicadores econômicos. Por isso, tem aproveitado todas as oportunidades para insistir que o “País não pode parar” e usado as redes sociais e solenidades para comemorar as boas notícias da economia.

Exemplo disto foi a comemoração do crescimento de 1ª do Produto Interno Bruto (PIB) do 1º trimestre de 2017 em relação ao período imediatamente anterior, superando a média de consultorias financeiras que estimavam 0,9%. “O Brasil venceu a recessão. O número de hoje (1º de junho) marca o renascimento da economia brasileira em bases sólidas e sustentáveis”, comemorou Temer à época. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, não deixou por menos ao prever que o PIB crescerá também no segundo trimestre, apesar das incertezas geradas com a crise política.

Mas, para que o avanço da geração de riquezas no País se consolide, é preciso que o Congresso Nacional aprove as reformas Tralhista e da Previdência. Na opinião do economista Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central e sócio da Tendência Consultoria Integrada, há duas questões fundamentais.  Primeiro, a da governabilidade, ter uma agenda mínima que assegure o andamento de ao menos alguma versão das reformas, tanto a trabalhista quanto a previdenciária. Também é preciso entender a nova relação com o Congresso.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, admitiu recentemente um “certo ajuste” no cronograma de votação das reformas, mas considerou que não deve ser “prolongado.  No entanto, do ponto de vista da formação das expectativas, é fundamental que o País dê demonstrações de que está empenhado em continuar o cronograma das reformas.
Agora, é sintomático pensar que não temos certeza se o governo atual quer fazer as reformas porque são importantes para o País ou apenas para ficar no poder. Isso revela o tamanho do nosso desafio, como eleitores.

Wanderley de Faria é jornalista especializado em Economia e Negócios, com MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela FIA/FEA/USP - BM&FBovespa

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Não será publicado.

One thought on “É a economia, estúpido!”

  1. Avatar Octacilio Pacheco Filho disse:

    Parabéns pela análise, concordo com ponto de vista. Torna-se importante a continuidade o processo iníciado pela área econômica brasileira.