Criado nos anos 50 pelo sociólogo inglês Michael Young, o moderno conceito de meritocracia adotado atualmente designa um modelo de hierarquização baseado nos méritos pessoais, na avaliação de desempenho, esforço e dedicação de cada indivíduo. Um dos seus grandes benefícios nas empresas é o de manter colaboradores motivados a buscarem o melhor e prestarem um serviço de qualidade.

Atualmente, grandes corporações privadas e mesmo os governos absorvem a meritocracia como forma de valorizar as pessoas e buscar os bons resultados. No âmbito governamental, porém, o conceito e sua prática suscitam dubiedade em nosso País, isso porque por aqui a concentração de poder, o alto índice de burocratização e a ingerência política, em detrimento de critérios técnicos, atrofiam boas práticas de gestão que resultem em eficiência.

A implementação da meritocracia não pode, de maneira alguma, coabitar num ambiente de ética flexível. Embora muitas empresas queiram e estejam implantando tal modelo, sucesso em corporações como Ambev, Natura, Magazine Luiza, HP, Johnson & Johnson e Itaú, no caso brasileiro não se costuma ter a junção do mérito com os critérios do compliance. As boas práticas de governança e compliance constituem uma coluna estrutural para a gestão e a sustentação de qualquer negócio, orientando, desde os colaboradores das funções operacionais mais básicas aos mais altos gestores e CEOs, valores como ética, integridade, métricas e transparência.

A meritocracia, portanto, está alicerçada a esses valores, que não podem ser somente das empresas, mas efetivamente de cada membro da equipe, e com isso garantindo conformidade e aprimoramento dos mecanismos de prevenção e correção dos desvios de conduta.

O sistema de meritocracia provoca reiteradas vezes discussões acerca dos riscos da concentração de poder, quando desalinhada dos dos valores citados anteriormente. Em qualquer modelo, essa concentração pode ocorrer, mas só a meritocracia pode se alinhar a valores e princípios, que devem ser considerados indiscutíveis, e com isso prevenir possíveis impactos de decisões de quem tem poder, tem méritos, mas põe tudo a perder ao não agir com ética necessária ou no mínimo flexível.

Um exemplo recente do tipo impacto e consequência social que isso pode gerar foi a tragédia da barragem da Vale em Brumadinho (MG), que sob comando de um presidente escolhido por meritocracia, usou de seu poder e autonomia, tomando decisões em sua individualidade, contrariando todas as regras de boas práticas e de um sistema de qualidade, sem ater-se em preocupações que impactaram numa gigantesca e onerosa obra. A imprudência ceifou vidas humanas e todo um sistema biológico. Ou seja, valores, princípios e preceitos técnicos e éticos não foram respeitados.

Se pudéssemos então materializar a meritocracia, ela seria construída com valores, comportamentos, gestão eficiente, zelo, expectativas, critérios de integridade para seleção de executivos, além da maior responsabilização de gestores por suas decisões, algo que, inclusive, deveria merecer mais atenção de nossos legisladores.


Deixe seu comentário