A ata divulgada nesta terça-feira (26/03) do Conselho de Política Monetária (Copom) do Banco Central é clara: vivemos ainda uma grave crise de confiança generalizada, mesmo com o início de um novo governo, que se reflete numa recuperação muito lenta da economia brasileira. Isto impacta diretamente no consumo, nos investimentos e na geração de novos empregos.

“Os indicadores recentes da atividade econômica apontam ritmo aquém do esperado. A economia segue com alto nível de ociosidade refletido nos baixos índices de utilização da capacidade da indústria e, principalmente, na taxa elevada de desemprego. Uma frustração das expectativas sobre a continuidade das reformas (no Congresso) e ajustes necessários na economia brasileira pode elevar a trajetória da inflação no horizonte. Este risco se intensifica no caso de deterioração do cenário externo para as economias emergentes.”

Este é um resumo da ata do Copom. Dois fatores principais, na avaliação do BC, travam hoje a retomada do crescimento econômico: receio de que uma crise política (alimentada quase que diariamente pelo Palácio do Planalto) frustre as reformas, especialmente a da Previdência, e a falta de ajustes na condução da política econômica do País. Portanto, a crise é essencialmente política, que propicia a falta de confiança.

O governo de Jair Bolsonaro não apenas continua a dever um projeto claro e factível para o crescimento da economia, como sabota seus próprios projetos de reformas ao criar desgastes e polêmicas desnecessárias ou quando alguns dos seus ministros tomam decisões equivocadas. Para piorar, existe o risco de que a economia global desacelere, o que retardaria ainda mais uma retomada do crescimento brasileiro.

Este cenário preocupante não foi gerado apenas pelo atual governo, convém frisar. Os membros do Copom ressaltaram que a economia brasileira sofreu “choques” em 2018, como a greve dos caminhoneiros e a elevada incerteza sobre os rumos do País com a eleição presidencial. “Esses fatores produziram impactos sobre a economia e aperto relevante das condições financeiras, cujos efeitos sobre a atividade econômica persistem mesmo após cessados seus impactos diretos”, afirma a ata.

Mas é fato que o governo de Bolsonaro tem feito ainda muito pouco para aumentar a confiança de consumidores e dos empresários. As últimas pesquisas de avaliação da sua gestão já apontam claramente isto. “Uma aceleração do ritmo de retomada da economia para patamares mais robustos dependerá da diminuição das incertezas em relação à aprovação e implementação das reformas e ajustes de que a economia brasileira necessita”, enfatizou o Copom.

O indicador de geração de empregos em fevereiro, divulgado ontem (25/03) pelo Caged, aponta para um cenário menos sombrio para a nossa economia. Mas sem a confiança da população sobre o futuro econômico do seu país, não há aumento de consumo e, consequentemente, de investimentos e de novos empregos. O PIB continuará patinando à beira do precipício.

O Copom projeta inflação de 3,9% para este ano e 4% para 2020. Os juros básicos do BC devem ser mantidos (no patamar mais baixo da história recente) em 6,5% ao ano em 2019 e pode chegar a 7,75% no final de 2020. O dólar deve variar na cotação média dos R$ 3,70 neste ano e R$ 3,75 em 2020.

Já o cenário para o PIB é nada animador. O mercado projeta crescimento para algo na casa de 2% neste ano e em 2020. É muito, muito pouco. Segundo reportagem do jornal O Globo (25/03), a economia brasileira deve crescer a uma taxa média anual de 0,9% entre 2011 e 2020, confirmadas as atuais projeções. Será menor que a taxa média de crescimento da chamada década perdida, nos anos 80, de 1,6% ao ano. Aliás, deverá ser uma das taxas médias mais baixas dos últimos 120 anos.

Sem a confiança sobre o futuro, todos perdem.


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