A quatro meses das eleições, os economistas e o mercado financeiro parecem se dar conta de que o cenário para 2018 é muito mais complicado do que se imaginava. Uma greve que parou o País, um governo frágil, um cenário eleitoral completamente indefinido, um desempenho econômico decepcionante aliado a um cenário externo desfavorável. Esses ingredientes desestabilizaram o mercado, deixaram os investidores no escuro e levaram os economistas a rever todas as projeções para 2018 e 2019.

A deterioração da economia e da política brasileira ainda deverá frear os investimentos feitos pelos estrangeiros no País pelo menos até dezembro e não há sinais de que o nervosismo financeiro vá passar. Nem mesmo com a promessa do Banco Central de injetar US$ 20 bilhões no mercado até sexta-feira (15).

A turbulência mudou totalmente o cenário otimista que o mercado projetava no início do ano. A sensação dos investidores e dos economistas dos grandes bancos era que a alta estimada de 3% no Produto Interno Bruto (PIB) chegaria ao dia a dia da população, que, consequentemente, apoiaria um candidato de centro-direita para a corrida eleitoral.

Para baixo

Mas o cenário se distanciou bastante disso. Os economistas do mercado financeiro, conforme o relatório Focus, divulgado nesta segunda-feira (11), reduziram as previsões para o PIB deste ano. A projeção de crescimento para 2018 passou de 2,18% para 1,94%, enquanto a estimativa de expansão de 2019 passou de 3% para 2,80%.

Na semana passada, mais bancos reviram para baixo suas projeções econômicas para 2018 – o Bradesco cortou de 2,5% para 1,5%, o Itaú de 2% para 1,7% e o Bank of America Merrill Lynch de 2,1% para 1,5%. Há, inclusive, economistas que já projetam uma repetição do resultado de 2017, quando o PIB avançou 1%, após acumular queda de quase 7% nos dois anos anteriores.

“Meu cenário base já é de uma economia que cresça menos que em 2017. O primeiro trimestre não tem fôlego para impulsionar o resto do ano como em 2017, com a safra recorde”, diz a economista Monica De Bolle, do Peterson Institute for International Economics. “Agora é esperar, porque estamos sem controle da própria situação.” Para Paulo Leme, presidente do conselho da Vinland Capital, um PIB de 1% “não seria tão ruim dadas as dificuldades”.

O professor José Luís Oreiro, da Universidade de Brasília, destaca que, para o PIB chegar a 1,5%, a economia terá de avançar pelo menos 0,5% no terceiro trimestre e mais 0,5% no quarto – ele prevê um número negativo no segundo trimestre.

“Se o governo ainda existisse, teria de fazer um ajuste fiscal de emergência, poderia aumentar impostos para tentar reduzir o déficit em 2019”, diz Oreiro. A medida, afirma, daria espaço para um recuo na taxa básica de juros, o que poderia impulsionar o PIB. “Como o governo não existe mais, o que nos resta é esperar 2019.”

Ferramenta

A redução da Selic em 7,75 pontos porcentuais até maio é justamente a ferramenta que resta ao País, dizem os analistas. Para o economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani, o crédito está se recuperando na esteira da queda do juros e deve ser responsável por parte da elevação do PIB neste ano. Ele prevê um resultado “otimista”, de 1,8%. A economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, vai na mesma linha. “Ainda tem efeito de política monetária para se materializar. Não vejo a economia com fundamentos tão ruins para entrar numa espiral recessiva”.

No mercado de capitais, o humor também mudou em relação ao início do ano, quando as companhias recorreram à Bolsa, reafirmando o apetite de investidores estrangeiros e nacionais por negócios locais. A expectativa era que mais empresas recorressem ao mercado até julho. O sinal, no entanto, se inverteu. Em maio, as operações caíram drasticamente – nenhuma empresa abriu capital. De janeiro a maio, as transações no mercado de capitais haviam somado R$ 73,4 bilhões, alta de 40% na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo a Anbima (associação das entidades do mercado de capitais).

“O segundo semestre vai ser mais complicado. A expectativa mais otimista é que possamos repetir o desempenho de 2017. A depender de quem for eleito e se tiver o apoio do Congresso, 2019 será melhor”, diz Marcelo Noronha, vice-presidente do Bradesco.


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