Nem mesmo questões trabalhistas e tributárias, constantemente alvo de queixas do setor produtivo, fazem do Brasil um ambiente mais hostil ao empreendedor em comparação com outros países. É o que defende o fundador da Suno Research, consultoria de investimentos, , Tiago Reis, que estará em Goiânia na próxima quinta-feira (24) para participar do 1º Fórum Mundial de Empreendedorismo. “Aqui no Brasil, a competição é muito mais amigável em quase todos os setores, é muito mais fácil se destacar e fazer um bom produto ou serviço”, afirmou ao EMPREENDER EM GOIÁS.

Isso porque, aponta Tiago Reis, no geral, as empresas brasileiras tratam o consumidor como um “mal necessário” ao invés de “um parceiro”. E quem faz “o mínimo”, na visão dele, sai na frente da concorrência. Para ele, com o avanço da internet, dinheiro deixa de ser o gargalo para quem sonha em criar o próprio negócio. “Dinheiro pode ajudar? Pode, mas não é esse o gargalo. O gargalo é ter uma combinação de boas ideias, visão e execução. Não faltam exemplos de empreendedores que começaram com pouco ou nada, na internet, e estão avançando”, diz.

O Fórum ocorre nos dias 24 e 25 de maio, na Unialfa (Unidade Perimetral). O evento é realizado pela Federação das Associações de Jovens Empreendedores e Empresários do Estado de Goiás (Faje Goiás) e Confederação Nacional de Jovens Empresários (Conaje), em programação com palestras e workshops. Confira a entrevista!

 

Empreender em Goiás: O empreendedor brasileiro enfrenta muitas dificuldades para se manter no Brasil. No exterior seria mais fácil do que aqui?

Tiago Reis: Não, não. Acho que empreender é difícil em qualquer lugar do mundo. O Brasil tem algumas dificuldades que existem em outros países e tem outras coisas boas que não têm em outros países. Um exemplo é um mercado gigante de 200 milhões de consumidores. Quantos países no mundo têm isso? Tem imposto, isso é ruim, mas imposto existe em todo lugar. Nos Estados Unidos, não é essa ‘mil maravilhas’, a competição é feroz. Aqui no Brasil, a competição é muito mais amigável em quase todos os setores, é muito mais fácil se destacar e fazer um bom produto ou serviço.

 

EG: Como é esse ambiente competitivo lá fora?

TR: Obviamente, depende de cada país ou setor. Não dá para fazer uma generalização. Mas nos Estados Unidos, a principal economia do mundo, o ambiente competitivo é muito, muito, muito mais feroz. As margens são menores, a competição por preço, qualidade, atendimento do consumidor é muito maior. Existem grandes corporações atuando em quase todas as verticais. Empreender no Brasil é muito mais fácil do que lá fora, nos Estados Unidos, por exemplo. As pessoas vão discordar, mas essa é a verdade, pelo menos para mim.

EG: Existem muitas queixas em relação às questões tributária e trabalhistas quando se fala em empreender no Brasil. Como você avalia essas críticas?

TR: Acho que a questão da reforma trabalhista ajuda um pouco e, realmente, a questão tributária precisa ser equacionada. O que se paga de imposto no Brasil, em todas as frentes, é um certo exagero, sobretudo em relação ao que se recebe. Isso não é novidade. De certa forma, o empreendedor tem que passar isso para preço. A pior coisa é um competidor que não paga imposto. Se você compete com todo mundo pagando igual é menos mal porque é um custo que todo mundo tem a mais, repassa para preço, se o consumidor aguentar. Quando você começa a competir com quem tem alguma vantagem tributária, complica, né?

O empreendedor tem que escolher muito bem aonde ele quer operar. Se ele for competir com um importado chinês, esquece, acabou, não tem a mínima chance. Mas se competir com players nacionais que jogam o jogo do jeito correto, vai da competência de ser melhor do que esses caras. É muito difícil ser competitivo com produtos que você vai exportar ou compete com players de fora. A não ser que você opere no segmento de commodities, como mineração, soja etc. Mas se você opera oferecendo produto e serviço no Brasil que não precisa importar, aí você só precisa ser melhor do que o concorrente do lado.

 

EG: Depende muito do empreendedor, então, focar nos seus pontos positivos e se alavancar…

TR: O empresário tem que escolher muito bem o segmento que vai operar. Muito bem. Se ele escolhe um segmento que compete com players internacionais, como produzir brinquedo, está competindo com chinês. Não vai ter a mínima chance de ser competitivo. Agora, se ele busca uma vertical que não tem importação, e existem várias, as chances aumentam brutalmente, porque vai competir com brasileiro.

Na média, as empresas no Brasil são muito mal tocadas. Então, só precisa ser melhor do que seu concorrente e isso é muito fácil. Na média, elas fazem produtos péssimos, tratam o cliente como mal necessário, não tem a visão do cliente como parceiro, que precisa ser respeitado, bem tratado. Quem faz minimamente isso já sai na frente.

 

EG: Ou seja, as áreas prósperas existem quando o empreendedor enxerga quem está na concorrência. Nesse processo de escolha de onde vai atuar é que ele pode fazer seu projeto ser próspero ou não?

TR: Isso, o empreendedor tem que escolher o segmento que ele consiga ter uma diferenciação. Só que no Brasil as empresas tratam o cliente tão mal, isso eu falo até das empresas grandes. Basta ver quem são os campeões [de reclamação] no Procon: bancos, empresas de telefonias. Não é à toa que existe um monte de fintechs, algumas até com precificação bilionária, por quê? Porque elas operam em cima de alguma deficiência do sistema bancário brasileiro, que não é pouca, inclusive de ética, qualidade do serviço e de preço.

Por que essas empresas têm prosperado ou pelo menos conseguido avaliação elevada de preço? Porque a concorrência, que seriam os bancos, são muito mal tocados, tratam o cliente como se fosse gado, e qualquer um que tem uma visão de tratá-lo como um parceiro e não como um mal necessário tem chance de prosperar, porque o consumidor, no final do dia, volta com a carteira, quer ir pra aonde é bem-tratado. Se você o trata bem, tende a ganhar mercado do que trata mal. É só uma questão de tempo para dominar o mercado.

 

EG: Falando de negócios fora do Brasil, o senhor acha que há investidores dispostos a bancar negócios brasileiros?

TR: As empresas brasileiras têm uma linha de crescimento muito clara no Brasil, que é simplesmente ganhar mercado. É muito fácil ganhar mercado, basta tratar o cliente um pouquinho melhor que os demais [concorrentes] e o boca a boca começa a prosperar. Vamos falar uma realidade brasileira: existe pouco dinheiro no Brasil. As pessoas não têm cultura de poupança. São poucas famílias muito ricas que têm dinheiro. A desigualdade realmente existe e não vejo um interesse muito grande de investidores brasileiros, que são poucos, querendo financiar a expansão internacional. Acho que existe mais um interesse direto lá fora. Como comprar a ação de uma empresa estrangeira, etc.

 

EG: Em relação ao mercado empreendedor goiano, qual seria a melhor área a ser explorada?

TR: A internet derrubou barreiras. É possível empreender de qualquer lugar. Não tem muita barreira, qualquer empresa pode ser bem-sucedida. No passado, se você queria começar um negócio realmente tinha que estar em São Paulo ou no Rio, os grandes centros consumidores.

Hoje em dia, com a internet, é possível ter uma empresa de sucesso em qualquer cidade do Brasil, porque a internet tem uma distribuição própria, o consumo de conteúdo está na ponta final, e não na originação. Se você origina conteúdo em Goiás ou em Tóquio, o consumidor do Acre, de Manaus, ou seja, onde for, vai conseguir igual. Eu já vejo empreendedores de internet prosperando em vários polos do Brasil. Óbvio, algumas cidades têm mais talentos do que outra, mas isso é uma vantagem e uma desvantagem. Tenho funcionários em Goiânia, em Goiás, que ficam aí. E para mim é muito bom contratar gente do Brasil inteiro. Aqui em São Paulo, a competição é brutal por talentos. Você contrata, dois meses depois o cara vai embora. Eu não perco ninguém de fora de São Paulo.

 

EG: Qual é o principal desafio?

TR: Empreender digitalmente é o futuro. Toda empresa terá que ter uma estratégia de internet. E não faltam empreendedores avançando em diversas regiões do país que antes poderiam ser mais difíceis de prosperar. A internet já é o presente.

Um ponto importante é que não existe mais desculpa. No passado, fala-se que não tinha dinheiro para empreender. Hoje em dia, com R$ 20 mil, é possível empreender. Não é esse o desafio. O desafio é ter boas ideias, visão e execução. Se tiver isso, vai prosperar. Dinheiro pode ajudar? Pode, mas não é esse o gargalo. O gargalo é ter uma combinação de boas ideias, visão e execução. Não faltam exemplos de empreendedores que começaram com pouco ou nada, na internet, e estão avançando.


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