A jovem engenheira de alimentos Patrícia Mercês comanda a produção da Colombina

Toda a exuberância e o sabor dos frutos do Cerrado, combinados com cervejas artesanais de fabricação orgulhosamente goiana (como sugere o slogan), acabam de chegar à Europa para conquistar os austríacos e, até janeiro, também os alemães. A primeira remessa para exportação da cerveja Colombina, despachada em outubro, chegou em solo europeu pelo porto de Hamburgo (Alemanha) e já é comercializada na Áustria a um preço tão competitivo como o de Goiânia – entre cinco e seis euros a garrafa de 600 mililitros (ml), o equivalente a cerca de R$ 20 -, graças à atrativa carga tributária para produtos exportados.

A novidade foi repassada em primeira mão ao EMPREENDER EM GOIÁS pela diretora-geral da Cervejaria Goyaz, Patrícia Mercês, responsável pela produção da Colombina. Nessa experiência inicial fora do País, foram enviadas 6.500 garrafas de 600 ml cada (um total de 3,9 mil litros), com os 15 tipos diferentes fabricados pela marca. A previsão é de que uma nova remessa seja encaminhada, para o mesmo distribuidor, em janeiro. A partir daí, a empresa planeja manter uma periodicidade de envio bimestral.

O austríaco responsável por importar e distribuir a Colombina na Europa conheceu a cerveja em Goiás. É casado com uma goiana e, numa das visitas à terra natal da esposa, se surpreendeu com o sabor peculiar da cerveja que tem, entre seus ingredientes, pequi, mutamba, baru, cagaita e outros frutos típicos do Cerrado. Levou amostras do produto para degustação na Áustria e teve total aprovação dos clientes locais. O sucesso foi tamanho que 20% da carga encomendada já havia sido vendida antes de chegar ao destino.

Patrícia Mercês destaca que o distribuidor tem direito de venda em quatro países de língua alemã: além da Áustria e da própria Alemanha, também Suíça e Lichtenstein. “A gente sempre acreditou muito na exportação da Colombina, por causa do apelo dos frutos do Cerrado. Agora, é entender todo esse processo e construir uma base sólida para exportar para outros países, futuramente”, diz.

A cervejaria goiana também tem projetos de expansão para o mercado nacional para 2018. A empresa, que atua principalmente em Goiás e Brasília e que, recentemente, alcançou o Triângulo Mineiro, pretende chegar aos mercados de São Paulo e do Rio de Janeiro até o fim do ano que vem. Para isso, a fábrica programa expandir a produção em 35%, chegando a 54 mil litros por mês.

Hoje, a Cervejaria Goyaz produz, em média, 40 mil litros mensais de bebidas, dos quais 60% são de chopp (vendidos para empresas e também de forma delivery) e 40% são de cerveja engarrafada. O volume é, atualmente, o dobro da média nacional de fabricação das cervejarias especiais, de 20 mil litros por mês. A diretora-geral afirma que, conforme as projeções para 2018, o faturamento da empresa deve manter o mesmo ritmo de crescimento dos últimos anos, na casa dos 20%.

A Cervejaria Goyaz produz em média 40 mil litros de bebidas por mês em Goiânia

Lançada há quase quatro anos, a Colombina é a primeira cerveja artesanal de produção goiana. Veja bem: artesanal, nesse caso, não significa rudimentar, mas que se trata de um processo mais especializado, com matérias-primas nobres. São, ao todo, 15 tipos diferentes de cerveja, das quais dez são mantidos em linha de fabricação constante – mensal e bimestral. A fábrica também produz o chopp Colombina.

No ano que vem serão lançados mais quatro estilos com novos frutos típicos – o cajuzinho do Cerrado está entre eles. A Cervejaria Goyaz opera com distribuição própria, no atacado, para bares, restaurantes e outros estabelecimentos, possui um quiosque, no Setor Marista, para atendimento no varejo e, há três meses, fechou uma parceria para a venda de chopp Colombina Express, com entrega de barris de 30 ou 50 litros.

GOIANA É PIONEIRA EM CERVEJAS ESPECIAIS

A Cervejaria Goyaz, que fabrica a Colombina, é uma empresa familiar, comandada pela jovem engenheira de alimentos Patrícia Mercês, de 32 anos, que tem, na sua equipe, a mãe e a irmã. Entretanto, a trajetória começa com o pai, Joãozinho Mercês, do histórico bar homônimo, que funcionou por muitos anos na esquina das ruas 4 com 24, no Centro de Goiânia. Em 2000, um ano após a fusão das duas maiores marcas de cerveja do mercado nacional na época (Antarctica e Brahma), que deu origem à Ambev e que transformou o mercado, o empresário decidiu montar a própria microcervejaria, espelhando-se nas experiências que surgiam no Sul e Sudeste do País, na época.

Era o início da Cervejaria Goyaz, na produção do Chopp Mercês, tipo pilsen, para venda no bar e para delivery. Ela funcionou dentro do estabelecimento por cerca de três anos, até ser transferida para uma estrutura no Jardim Guanabara, de 300 metros quadrados, onde permaneceu até 2016. Atualmente, as instalações ficam em Aparecida de Goiânia, com 1,2 mil metros quadrados de área e 22 funcionários. Na mudança, foram investidos cerca de R$ 1 milhão para adequações e equipamentos.

Nesse meio tempo, durante a faculdade, Patrícia fez intercâmbio por um ano na Universidade de Liège, na Bélgica, país referência na produção de cervejas especiais. Entre 2007 e 2008, conheceu e se apaixonou pelo universo da cerveja, investiu em estudos, no estágio e em pesquisas sobre o tema. Ao terminar o ensino superior, em 2010, mudou-se para o Rio de Janeiro e trabalhou fora da área. Mas, como sempre sonhou em empreender, no final de 2013, convenceu a família a retomar a ideia de investir em produção de cervejas especiais e encontrou o consultor Alberto Nascimento para auxiliar a empresa no estudo de mercado e no desenvolvimento do produto. Hoje, além de sommelier, Alberto é diretor-comercial da cervejaria.

Patrícia Mercês fez intercâmbio na Universidade de Liège e investiu em estudos e pesquisas sobre as cervejas especiais

Antes mesmo de apresentar o primeiro produto ao mercado, a dupla entrou na luta pela redução do ICMS sobre bebidas, causa que só teve resultado em 2017, com a redução da alíquota do imposto pelo governo do Estado. Em fevereiro de 2014, a Colombina foi lançada oficialmente, tornando-se a primeira cerveja especial produzida em Goiás. Os três primeiros tipos de produtos eram Lager, IPA e Weiss. Com um mês de mercado, a Colombina IPA ganhou bronze no Festival Brasileiro de Cervejas, em Blumenau, considerado o terceiro maior do mundo. Em 2017, foi a vez da Lager receber prata no mesmo campeonato. A produção inicial da marca era de 7 mil litros de bebida por mês e, hoje chega, em média, a 40 mil litros.

Patrícia explica que até 2016, a cervejaria manteve, junto com a Colombina, a produção do chopp Mercês, mas, por uma questão estratégica, o produto deixou de ser fabricado nas instalações e buscou outra indústria para continuá-lo. “Acho que essa foi uma das decisões mais importantes da empresa, o momento em que viramos a chave e trocamos um produto de baixo valor agregado, por outro de maior valor”, ressalta.

A empresária destaca ainda que, como pioneira, a Colombina ajudou a desbravar o mercado em Goiás que, antes, não valorizava o custo-benefício das cervejas especiais. Segundo ela, atualmente existem cerca de 15 microcervejarias registradas no Estado fora as ciganas, que não têm a planta produtiva, mas fazem a marca. Por outro lado, as artesanais não chegam a 1% do total do mercado nacional de cervejas. “Temos muito espaço para crescer ainda.”


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